5 livros sobre pandemia/ epidemias que assolaram a humanidade

Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), a pandemia é:

 “A disseminação mundial de uma nova doença, e o termo passa a ser usado quando uma epidemia, surto que afeta uma região, se espalha por diferentes continentes com transmissão sustentada de pessoa para pessoa.

Então, não precisamos falar aqui que o mundo está sofrendo com uma pandemia, isso já virou clichê. O que viemos trazer para você, leitor(a), são as outras pandemias que assolaram a humanidade.

Durante vários períodos da história, o homem passou por desafios vindos de doenças trazidas, primordialmente, dos animais. Desde a gripe, que veio das aves e dos porcos, até o HIV – que foi passado depois de uma caçada infeliz de um chimpanzé.

Nos últimos anos, as doenças infecciosas têm aumentado por causa da nossa densidade demográfica, além da facilidade de locomoção. Assim, antes da agricultura, uma tribo africana que contraísse varíola poderia ser dizimada pela doença em menos de 1 ano. Entretanto, o vírus não era transmitido para outras tribos. 

Porém, como o assunto já está muito batido e cansativo, resolvemos trazer uma visão diferente sobre o tema. Para isso, elencamos 5 livros que podem ajudar a entender as pandemias e, ao mesmo tempo, ler grandes autores da literatura mundial.

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  Peste negra: A pandemia que levou 40% da Europa para o caixão

A peste negra foi uma pandemia que assolou a Europa e o mundo na baixa idade média. O seu maior impacto veio entre 1345 e 1355. A doença tem origem na peste bubônica, disseminada através de pulgas e piolhos vindos de diversos animais, entre eles os ratos.

O seu nome tem origem nos bubões, nome dado na época aos inchaços no corpo. Já o nome Peste Negra tem origem nas gangrenas dos tecidos da pele que escureciam.

A pandemia matou cerca de 40% da população da Europa, além de exterminar 100 milhões de pessoas por todo o mundo. Um exemplo claro de como a doença era letal é que 60% das mortes aconteciam na primeira semana de contaminação. 

Porém, devido à dúvida sobre como aquela doença assolou a humanidade, várias teorias foram inventadas. Uma delas dizia que era um castigo bíblico, que deveria ser pago com penitências. Entretanto, uma outra parcela  colocava a culpa em outros povos, como os judeus, pessoas com hanseníase e romanos. 

O diário do ano da Peste (Daniel Defoe)

Sim, caro leitor, o cara que escreveu Robinson Crusoé também foi um dos precursores do estilo novela reportagem. Em o Diário do Ano da Peste, Daniel Defoe retrata como a pandemia da peste negra assolou a Inglaterra.

O narrador da obra vai atrás de todos os meandros da doença. Ele descobriu, inclusive, que os dados das mortes poderiam ser muito maiores do que o que foi veiculado pela mídia da época. Além disso, descobriu que os primeiros casos da Inglaterra vieram dos holandeses.

 

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O texto também traz alguns pontos curiosos para entender a cultura medieval. Por exemplo: nele, descobrimos que, para identificar o número preciso de mortos, você tinha que ir para todas as paróquias, pois eram elas que tinham o número de cadáveres.

Outro ponto fundamental é descobrir que a doença foi escondida dos ingleses. A pandemia foi retirada, por cerca de 2 meses,  dos catálogos paroquiais de óbitos. Então, a peste negra já estava lá, mas ninguém queria que ela fosse descoberta.

Além de um retrato fiel da pandemia da peste, o livro de Defoe pode ser definido como um dos primórdios do jornalismo literário. Isso porque, nele, vemos tanto uma narrativa muito bem traçada da crise da pandemia, quanto dados e especificações que trazem um contexto histórico da época.

 

 Gripe Espanhola : A pandemia que matou mais do que a guerra

Em primeiro lugar, é bom deixar claro que a gripe causada pelo vírus H1N1, não veio da Espanha. O nome foi dado porque, na Europa da primeira guerra mundial, os espanhóis eram um dos poucos países que estavam fora da batalha. Assim, era um país com mais liberdade de imprensa, divulgando a doença antes dos outros.

Outro ponto que fez parecer que a doença nasceu na terra das touradas foi a quase morte do Rei Afonso XIII, que levou o resto da Europa a acreditar que a doença era espanhola.

 

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Segundo alguns estudiosos, a primeira pandemia da era moderna nasceu no Kansas (EUA), onde teve a primeira morte pelo vírus identificada. Porém, outra corrente afirma que o vírus transmitido de pessoa para pessoa veio de Étaples (França), que abrigava uma das maiores bases militares britânicas.

Entretanto, o importante é que, nas duas hipóteses, temos lugares com uma alta aglomeração de pessoas, em um espaço pequeno e sem higiene. Na França, por exemplo, a pequena cidade passou, durante a guerra, de 5 mil para 80 mil habitantes. Além disso, fica claro que, nos dois casos, a primeira guerra foi o carro-chefe para o vírus fazer a festa. 

A gripe espanhola matava, em média, 25 em cada 1000 infectados. Além disso, ela contaminou 5 milhões de habitantes, o equivalente a 25% da população mundial da época. Como rodou o mundo todo, a doença matou mais do que a primeira guerra mundial inteira. Por isso, havia uma teoria na época que falava que a doença era criação de Hitler.

O mez da Grippe (Valêncio Xavier)

Apesar de ser uma gripe que assolou a Europa, resolvemos trazer uma visão brasileira e inusitada da pandemia. Em o Mez da Grippe (sim, o título é esse mesmo), o escritor, dramaturgo e cineasta, Valêncio Xavier, conta, através de colagens, matérias de jornais, fotos, publicidade e notas oficiais, tudo sobre a pandemia da Gripe Espanhola em Curitiba.

Então é só um livro de colagens, o que tem de inovador nisso?

Pois bem, dentro da obra, os arquivos escolhidos são, às vezes, tão bizarros e inusitados, que o leitor fica em dúvida se estamos em um grande livro reportagem ou em uma obra de ficção. 

 

 

Além disso, o escritor traz relatos pessoais de diversos personagens que dão relatos absurdos sobre a cidade durante a pandemia, trazendo dúvidas.

Porém, ler estas colagens em plena pandemia assusta. Não pelos acontecimentos, mas, pelas semelhanças e acontecimentos parecidos. Por exemplo: logo que a pandemia chega à capital paranaense, o autor coloca colagens com remédios que prometem curar de forma natural o vírus. Outro ponto interessante são as passagens negacionistas, de moradores que acham que o vírus é uma invenção e, mesmo já tendo matado ⅔ da população do Rio de Janeiro, seja uma mentira.

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O livro é uma reflexão profunda sobre como a sociedade atua de maneira circular durante episódios de crise, sem mudar. A pandemia da Gripe Espanhola chegou ao Brasil em 1918, em uma embarcação portuguesa e teve 35.000 óbitos registrados.

Poliomielite: A epidemia que assombrou os EUA na segunda guerra

Antes de falar sobre a última obra escrita por Philip Roth, vamos explicar um pouquinho sobre a poliomielite, também conhecida como paralisia infantil. O poliovírus é  quem causa a doença, que afeta o intestino.

A poliomielite é uma doença proveniente de infecção direto de pessoa a pessoa, além do contato com muco, catarro, ou, até mesmo fezes. As maiores epidemias da doença vieram entre os anos 20 e 50. Antes da vacina, todo verão era assombrado pela paralisia infantil que, apesar do nome, também infectava adultos.

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Segundo matéria da revista planeta, escrita por Carl Kurlander, diretor do documentário, The Short Felt Round The World:

Em 1952, o número de casos de poliomielite nos EUA atingiu o pico de 57.879, resultando em 3.145 mortes. As pessoas que sobrevivem a essa doença altamente infecciosa podem acabar com algum tipo de paralisia, que as força a usar muletas, cadeiras de rodas ou a serem colocadas em um pulmão de aço, um grande respirador de tanque que puxa o ar para dentro e para fora dos pulmões, permitindo que elas respirem”.

 

É nesse período nefasto que se passa Nêmesis, um livro sobre a guerra, poliomielite e a culpa de um ser humano.

Nêmesis (Philip Roth): Epidemia x segunda guerra mundial e uma mente humana

Nêmesis é a deusa grega da vingança ou, para outros, o incêndio que tomará o planeta terra e extinguirá o ser humano. Porém, fiquemos com a parte da Deusa Grega para entender a obra de Roth.

O livro se passa na cidade de Newark, onde o autor nasceu. O protagonista, Eugene, é um professor de educação física traumatizado por não ir para a segunda guerra. Isso porque o exército não o aceita por causa de sua miopia. Assim, temos o primeiro paralelo com a mente perturbada de Eugene e os conflitos de sua existência.

 

 

Então, Eugene continua com suas atividades no centro esportivo do bairro, quando um grupo de italianos chega cuspindo e sujando o chão de propósito. Segundo os próprios vândalos, eles querem transmitir poliomielite para as crianças do local.

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Eugene limpa o local da maneira adequada. Porém, logo depois do incidente, várias crianças começam a contrair a doença, deixando o professor cada vez mais perturbado e culpado. Ora, ele gostaria de estar com seus amigos defendendo os EUA na guerra, ora, acha que é sua culpa as crianças judias do bairro estarem contraindo o vírus da paralisia infantil.

Philip Roth

Assim, o livro mostra a mente humana durante uma pandemia e o quanto a culpa pode ser um inimigo voraz para nós. A novela traz um narrador inesperado, que traz um tempero especial para a narrativa.

Nêmesis faz parte da tetralogia de mesmo nome que, junto com outros 3 livros, fecha a carreira de Philip Roth com novelas que abarcam a mente humana, além dos traumas podem invadir a nossa vida. 

Cólera e suas pandemias

Enfim, chegamos a uma doença que pode ser dita do homem para o homem. Isso porque é o Vibrião Colérico que causa  a cólera. A bactéria jamais foi encontrada em outro animal. Depois de conseguir sobreviver à acidez do estômago, ela chega ao nosso trato digestivo, causando vômitos, diarreia, além de cólicas abdominais.

Além disso, a doença deixa o enfermo rapidamente desidratado e com um tom meio azulado e pele murcha. 

Então, vemos que a morte se dá pela perda excessiva de água, queda no volume de sangue circulando, hipertensão arterial e arritmias cardíacas. Também podemos colocar na conta a falência das funções de circulação do sangue e rins.

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A cólera foi da Índia para o mundo. No país asiático, temos notícias da doença desde 500 a.c. Porém, o maior responsável pela disseminação da doença foram os ingleses e seu exército, que levaram ela para Londres e todos os países que fizeram escala no oceano Índico. De lá para o mundo, foi um passo.

Assim, a doença se espalhou por todo o mundo no século XIX. As maiores epidemias aconteceram de 1817 a 1896, povoando o mundo até hoje. Portanto, não precisa dizer que a medicina não encontrou uma cura efetiva para as bactérias.

E teve um escritor que usou todo esse drama  para fazer um dos maiores romances da história.

O amor nos tempos de Cólera (Gabriel García Marquez) 

O livro é mais uma obra fantástica de Gabriel García Marquez que tem a cólera como estopim inicial para descrever o homem na sua essência. O romance é baseado em um triângulo amoroso bizarro de Fermina Daza, Florentino Fernandes e Juvenal Urbino.

O enredo começa no fim. Fermina e Florentino se encontram, depois de 50 anos, na morte de Juvenal Urbino, médico com quem Fermina passou a vida depois de uma suspeita de cólera na família. 

Gabriel Garcia Marquez

Porém, na mesma época, ela tinha tido um amor juvenil com Florentino. Um romance com traços clássicos do cara pobre, apaixonado pela garota da família rica e decadente que queria se reerguer. Inclusive, o pai de Fermina saiu da cidade para os dois não terem contato, fazendo com que o casal se comunicasse por telégrafo.

Depois de um tempo, Fermina volta à sua cidade natal para viver seu amor, mas percebe que Florentino não é mais o cara. Assim, depois do já citado caso de cólera na família, se casa com o médico Urbino.

Com a doença envolvida no enredo, o romance não traz em nenhum momento o amor platônico correspondido, mas sim uma reflexão sobre os diversos tipos de relação amorosa que podemos ter. O leitor não encara Urbino como vilão, nem Florentino como um santo.

A peste (Albert Camus): Uma pandemia do Homem Revoltado

  O livro foi baseado na pandemia da peste negra que Albert Camus escreveu o que, para alguns, é a sua maior obra: A peste. O filósofo argelino/francês escreveu o livro em 1947, muito sobre a Peste, mas também muito em função da humanidade na segunda guerra mundial.

Então, a obra desbrava a cidade fictícia de Oran, dando sempre a entender que fica na França, pois diversos personagens falam sobre o desejo de ir até Paris.

Camus

Os ratos causam a peste na cidade. No começo do livro, eles morrem de maneira abrupta se espalhando pela cidade. Só depois de muito tempo perceberam que os ratos e a epidemia eram uma alegoria aos alemães nazistas de Hitler que invadiram a Europa.

Como todos os romances de Camus, o livro traz o seu viés existencialista, incorporado muito pelo seu protagonista, o Dr. Her. Assim, o médico traz o ideal do Homem Revoltado do filósofo, trazendo toda a angústia existencialista por todo e qualquer mal que assombra a humanidade.

A filosofia por trás da pandemia

Além disso, o romance traz paralelos interessantes com a pandemia do coronavírus. A epidemia do livro afeta os mais pobres, parcelas da população ficam desacreditadas quanto à veracidade da doença, além de cenas horrendas do médico com seu hospital lotado, lutando para ter alguma perspectiva de salvar, pelo menos, uma vida. 

Outro ponto interessante da obra é como ela retrata a solidariedade. Isso porque um dos pilares de Camus no romance era o de mostrar como, em meio ao caos de uma pandemia, guerras e outros males, o homem se transforma.

Assim, ele traz um conceito que trabalha muito em sua outra obra, O Mito de Sísifo e do homem revoltado. O homem revoltado  vive no absurdo do nosso cotidiano, sem deixar de lutar, além de ser feliz por melhorar o planeta terra.

 

Então, agora você entendeu por que fechamos com esse livro, não é mesmo?

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