A educação pela terra

Estou morando há alguns dias num motor home na favela Vila Itália, em São José do Rio Preto (SP), que será a primeira 3D do Brasil — digital, digna e desenvolvida. Esse talvez seja o mais ambicioso projeto da Gerando Falcões.

Eu poderia tocar o projeto no conforto da minha casa, mas não acredito que esse seja o caminho da verdadeira transformação social. Cada território tem suas próprias necessidades, que só se revelam de perto. É a educação pela terra — a terra urbana, da periferia, onde está sendo engendrado um ecossistema social que esconde saberes preciosos, à espera de um ouvido disposto a aprender. Uma escuta generosa é fundamental para azeitar as engrenagens de qualquer projeto comunitário.

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Políticas públicas bem-intencionadas morrem na praia porque são traçadas de cima para baixo. Nossos gestores ainda não aprenderam a ouvir as demandas da quebrada. Já disse neste espaço: a periferia não precisa de tutela, mas de parceria.

Queremos construir um laboratório social, testando soluções que, no futuro próximo, poderão ser repetidas país afora. Nossa ambição é inventar um programa social escalável, capaz de transformar a miséria em relíquia do passado. Quem pretende mudar o cotidiano da favela tem de fazer dela seu escritório. É por isso que estou na Vila Itália.

Elaboramos uma lista dos “Dez Mandamentos do Território”. É um conjunto de regras e recomendações que orientam o trabalho da Gerando Falcões. Os seis primeiros reforçam a importância do diálogo e da atitude receptiva. São eles: entender profundamente o território; mapear suas potências e fragilidades; estar nele presente a maior parte do tempo; construir soluções com seus habitantes; valorizar a crítica e o protesto dessas pessoas; e lembrar-se de que ninguém entende melhor um território do que aqueles que moram nele. O conhecimento útil sobre um território é sempre construído coletivamente.

O sétimo mandamento trata da implementação prática de projetos sociais: aceitar que a decisão final sobre o que será ou não construído cabe sempre aos moradores do território, ainda que, do nosso ponto de vista, eles estejam equivocados. O oitavo mandamento recomenda nunca prometer o que não se pode cumprir. É preciso moderar as promessas, respeitando a inteligência, o discernimento e a confiança das comunidades. O mesmo vale para o nono mandamento — esclarecer a finalidade de cada ação. Não basta ao agente social informar o que está sendo feito; ele deve explicar cada ação.

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O décimo mandamento talvez seja o mais importante: ter paciência. Não existe fast-food social. Melhoria concreta não se faz do dia para a noite. É preciso aceitar, com resiliência, o potencial e as fragilidades de cada território.

O conhecimento mais avançado sobre gestão social não está nos livros, mas escondido na favela. Essa mina de ouro em sabedoria é desperdiçada quando nos recusamos a escutar as vozes de seus moradores. Que possamos mudar essa atitude, buscando em cada território a inspiração necessária para enfrentar a pobreza brasileira.

Coluna da edição de 20 de julho do Jornal O Globo

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