A pobreza dos ricos

Aqui em Nova York, onde tenho passado as últimas semanas divulgando a causa da Gerando Falcões e estudando, não me canso de receber lições informais, dessas que podem vir de uma conversa, de um passeio pela cidade ou de uma visita ao museu.

A mais recente ocorreu graças à galeria Nara Roesler, que me colocou em contato com o artista plástico Vik Muniz. Nascido na periferia de São Paulo, ele é reconhecido no mundo inteiro por um trabalho que serve de metáfora da sua própria trajetória. Vik transforma lixo em arte. Extrai beleza daquilo que a sociedade rejeitou.

Já conhecia e admirava seu talento, mas agora pude conhecer de perto sua sensibilidade social. Perguntei como seria, em sua visão, um museu da pobreza. Vik devolveu a pergunta com uma provocação: “Qual pobreza, a do rico ou a do pobre?”.

Conhecemos bem a pobreza que aflige parte da população brasileira e mundial, mas há que destacar também a pobreza dos ricos, especialmente em nosso país. O rico brasileiro não sai de casa sem carro blindado, não anda de metrô, não vive sem a proteção de uma cerca elétrica e uma portaria 24 horas. Usa relógio caro no exterior, mas teme exibir qualquer jóia no Brasil. Seus filhos estudam nas melhores escolas e fazem intercâmbio, mas nunca brincaram na rua ou passearam sozinhos pela cidade. Sua família já visitou a Disney muitas vezes, mas nunca pisou numa favela a poucos quilômetros de sua casa.

A pobreza do rico é existencial. Ele é pobre de experiências. Desfruta tudo aquilo que o dinheiro pode comprar, mas não usufrui plenamente a cidade, não se integra à comunidade que o cerca, não troca experiências com vizinhos. Não importa quantos dígitos apareçam no saldo da conta bancária, ele é escravo do medo dentro da bolha que o protege e o sufoca.

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O contraste entre a realidade brasileira e o que tenho visto nos Estados Unidos só fortalece minhas convicções. Realizamos aqui, há poucos dias, um evento de arrecadação para a Gerando Falcões. Parte do PIB brasileiro compareceu. Ninguém chegou acompanhado de seguranças. Alguns vieram a pé ou de metrô.

Os Estados Unidos estão longe de ser perfeitos, mas, em lugares onde a desigualdade social não é tão obscena como a do Brasil, cenas assim se tornam possíveis. Ou alguém consegue imaginar um bilionário em São Paulo ou no Rio andando tranquilamente de metrô?

Por isso, quando falo em transformar a pobreza em artigo de museu, trato dessas duas dimensões da palavra. Quero que a fome, a miséria, a falta de saneamento, a escola precária e o hospital sem remédios se tornem relíquias do passado. Mas quero superar também esse estilo de vida paranoico e belicoso — pobre, enfim – de parte das nossas elites.

Só conheço um caminho para alcançar esses objetivos: os donos do dinheiro precisam assumir um compromisso de combate à desigualdade. É preciso entender que, quando o tecido social é esgarçado pela fome e pela miséria, todos pagam, inclusive os ricos.

Crescimento sem distribuição de renda nos empobrece como sociedade. A saída é ricos e pobres trabalhando em cooperação. Quando conviverem, ambos deixarão de ser pobres — um de recurso, outro de experiência.

 

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Texto publicado na edição de 28/09 do Jornal O Globo

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