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Competindo com robôs

Num mundo globalizado, é comum que decisões tomadas no Vale do Silício, em Pequim ou Bruxelas afetem mais nosso país do que aquelas saídas de Brasília. Ou que uma criação tecnológica patenteada por uma universidade alemã ou sul-coreana vire de cabeça para baixo o funcionamento da economia nacional. No debate sobre inovação, o Brasil ainda está em busca de um assento na mesa dos adultos, e essa falta de protagonismo nos coloca em posição de risco.

Para a população da favela, creio que o maior desses riscos é a automação. A substituição da mão de obra por robôs e drones multiplicará o rol de habilidades mínimas exigidas pelo mercado. Vagas em galpões, serviços de entrega e linhas de montagem desaparecerão, reduzindo a oferta de trabalho para quem tem menos escolaridade.

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A história de uma amiga, Talita Ribeiro, ilustra bem os riscos — mas também as oportunidades — da automação da economia. Recém-divorciada, ela se mudou para Delaware, nos Estados Unidos, e passou a trabalhar num armazém da Amazon. Conheceu gente do mundo inteiro, de todas as classes sociais. Ficou fascinada pelos robôs — braços de metal gigantes, articulados — e pelas esteiras, verdadeiras veias daquele organismo. Guiada pela curiosidade, entrou para um programa de aprendizado em mecatrônica e robótica mantido pela própria empresa. Era o início de uma nova carreira. Muitos cursos e muitas horas de estudo depois, hoje minha amiga — uma das poucas mulheres na sua área — é responsável pela manutenção dos robôs.

Talita pôde trilhar esse caminho porque teve incentivo para se qualificar. Mas disse estar preocupada com suas antigas colegas de trabalho — mulheres negras, latinas, imigrantes — que não poderiam conciliar uma rotina de estudos com seus dois ou três empregos. Está ciente de que, no médio prazo, o emprego dessas pessoas está sob risco.

Populações socialmente vulneráveis — do imigrante nos EUA ao morador de favela no Brasil — precisam de políticas públicas que garantam sua chance de requalificação profissional diante do tsunami da automação. Robôs são mais eficientes, o que é bom para o mundo dos negócios. Não há como competir com eles. O que temos de fazer é requalificar a mão de obra para as pessoas não se tornarem supérfluas nessa mudança inevitável.

Quando o escritor Yuval Harari esteve no Brasil, perguntei-lhe o que deveríamos ensinar hoje aos jovens das periferias. Yuval ponderou que é muito difícil pensar numa resposta, pois, dado o ritmo da evolução tecnológica, algo ensinado hoje poderá estar obsoleto em uma década. A possibilidade de erro é muito alta.

Ele então sugeriu que, antes de ensinarmos qualquer coisa, nos preocupássemos em ampliar o repertório emocional dos jovens, para que eles saibam lidar com a possibilidade, absolutamente real, de que suas profissões podem desaparecer em questão de anos — e, mesmo assim, tenham força interior para se reinventar e construir novas carreiras.

O Brasil tem pela frente esse grande e urgente desafio. Combater a pobreza, afinal, é também garantir que os jovens da periferia tenham condições de competir no ambiente cada vez mais tecnológico e automatizado que se desenha para as próximas décadas.

Texto publicado no Jornal O Globo, em 07/12

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