Culpa não enche prato

O Brasil tem 14 milhões de famílias na pobreza extrema. A esmagadora maioria recebeu a miséria como herança. Pobreza herdada não se resume à renda. Ela é multidimensional. Falta dinheiro a essas pessoas? Claro que sim. Mas, antes disso, faltam saneamento básico, moradia, luz elétrica, transporte, creche, escola de qualidade.

Quem cresce rodeado por carências não terá, quando adulto, as ferramentas necessárias para conseguir uma renda digna. A pobreza herdada é especialmente cruel porque tritura milhões de brasileiros logo na primeira infância, roubando-lhes o futuro.

A pobreza no Brasil é como uma prisão de segurança máxima. Por mais que o favelado se esforce, acorde às 5 horas da manhã, enfrente trem lotado, recolha latinha na rua, faxine a casa dos patrões, ele não consegue escapar. O muro da prisão é alto demais. Os pobres cumprem pena de prisão perpétua por um crime que não cometeram.

Entenda a história da pobreza e da favela no Brasil

Você, leitor, já deve ter pensado nessas questões. Quase 119 milhões de brasileiros estão atualmente em situação de insegurança alimentar. Em um país como este, qualquer pessoa de classe média ou alta já atentou para o problema da desigualdade. A maioria de nós, os “privilegiados”, provavelmente já sentiu até culpa. É natural

Mas culpa é um sentimento paralisante. Ninguém cria um programa social porque se sente culpado. A culpa é desagregadora, nos divide em vítimas e algozes. Não há vantagem em ver uma parte do país se sentindo culpada pela chaga da desigualdade. O sentimento do qual estamos precisando urgentemente é outro – é a responsabilidade.

Cada indivíduo conta com recursos que podem aprofundar ou amenizar a tragédia brasileira. A questão decisiva é o uso que fazemos desses recursos. Quem se sente responsável socialmente mobiliza o que tem – empresa, cargo político, reserva financeira, conhecimento, ou visão de mundo – para criar oportunidades. Quando não há responsabilidade social, essa rede poderosíssima de recursos é desperdiçada.

A pobreza no Brasil não é um acidente, é um projeto. Nossa máquina de produzir favelados não está com defeito – ela foi construída para essa finalidade. Precisamos de outra máquina. Temos que combater o projeto da pobreza elaborando, enquanto sociedade, um projeto alternativo.

A Gerando Falcões tenta dar sua contribuição por meio do programa Favela 3D, que entra agora em fase de execução em uma comunidade de São José do Rio Preto. É um experimento, um laboratório social, para testar ações que podem compor, no futuro, um plano de desfavelização aplicável nos quatro cantos do país. Nossa ambição é criar um protótipo de favela digital, digna e desenvolvida – 3D – para inspirar novas ações sociais.

Projetos como esse são movidos pelo senso de responsabilidade. Imbuídos desse sentimento, podemos descobrir quais tecnologias sociais são capazes de interromper o ciclo vicioso da miséria.
Que nós, cidadãos com responsabilidade de construir oportunidades, possamos um dia desativar, pela simples falta de detentos, a prisão de segurança máxima da pobreza social.

  • Coluna de Edu Lyra publicada no Jornal O Globo em 25/05/2021

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