Dez anos, e contando

A Gerando Falcões, que completa dez anos nesta semana, é filha da improbabilidade. Por muito pouco, deixou de ser uma iniciativa natimorta. No início, não havia dinheiro para nada, nem para pagar funcionário. Este o limão que me coube. A limonada veio na forma de sociedade. Afinal, sócios trabalham até de graça. A simples conveniência inicial, no entanto, se revelaria muito mais que isso. Foi um acerto estratégico. São meus sócios sociais Amanda Boliarini, craque da tecnologia; Lemaestro, cientista da última milha; e Mayara, gestora padrão Ambev, com quem eu viria a me casar. Se você tem o time certo, você tem futuro.

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O primeiro escritório da Gerando Falcões foi no quarto da minha casa. Uma casa sem reboco por fora e por dentro. A escassez material era compensada pela fartura de imaginação. Larguei a faculdade para poupar o pouco que tinha e escrevi “Jovens Falcões”, livro publicado de forma independente, com captação de patrocínio na cidade de Poá, no extremo leste da Região Metropolitana de São Paulo. Treinei um time de 30 jovens. Vendíamos o livro de porta em porta por R$ 9,99. Em três meses, comercializamos 5 mil exemplares na periferia e na favela. Com o dinheiro, iniciamos nosso sonho.

aniversário

Eu sabia que estava isolado socialmente. Minha network eram os moleques da quebrada. Precisava me conectar com o mundo dos negócios, furar a bolha da Faria Lima. Decidi derrubar os muros psicológicos da minha cabeça. Só assim destruiria muralhas sociais e construiria pontes entre a periferia e o centro do capitalismo. É esse o peso que, sem exagero, atribuo ao encontro que promovi na favela com Jorge Paulo Lemann, da Ambev, e Satya Nadella, CEO Global da Microsoft.

Quem não muda muito não muda nada. Nos últimos dez anos, nós mudamos muito. Deixamos de ser uma única ONG na favela e nos tornamos um ecossistema de desenvolvimento social, presente em mais de 700 favelas, entregando serviços de educação, desenvolvimento econômico e cidadania, em colaboração com centenas de ONGs aceleradas em nossa plataforma. Na fase pandêmica, criamos uma campanha de combate à fome e estamos próximos da marca de R$ 60 milhões mobilizados e 1 milhão de pessoas alimentadas com doações de mais de 100 mil pessoas.

O que é uma ONG?

Nossa missão é transformar a pobreza da favela em peça de museu antes de Elon Musk colonizar Marte. Erradicar a desigualdade não pode ser mais desafiador do que a aventura espacial do empreendedor bilionário. Estamos atrasados, sim, mas temos nosso moonshot —a Favela 3D, um laboratório de tecnologias sociais de combate à pobreza, que está fazendo intervenção sistêmica na favela para interromper o ciclo de pobreza e criar um motor de prosperidade. Vamos entregar ao Brasil uma tecnologia escalável de transformação integral das favelas.

Venci a pobreza na favela uma vez. Sei que dá para vencê-la em escala. A Gerando Falcões existe para resgatar os pobres desse sequestro social. Mas não deve existir para sempre. Ao contrário das empresas do best-seller de Jim Collins, ela não foi feita para durar. Pelo menos, não além do tempo em que nosso objetivo for alcançado. Não vejo a hora de nos tornarmos desnecessários.

Obrigado a todos e todas que acreditaram nesse sonho.

Coluna publicada no Jornal O Globo, em 22/06/2021

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