Disco voador!

A ação policial mais letal da história do Rio de Janeiro reforçou o que todo mundo já sabe ou intui: entrar nas favelas atirando para matar não resolve o problema da criminalidade. 

O drama é antigo. No início dos anos 90, Jorge Benjor já alertava os pequenos traficantes de Jacarezinho sobre a presença ameaçadora da polícia: “Avião, cuidado com o disco voador!” 

O Estado brasileiro, infelizmente, empresta atualidade à crônica do compositor, que popularizou as gírias para entregadores de drogas (avião) e as forças policiais (disco voador). É um Estado especialista nesse tipo de operação, que traumatiza a população e aumenta a vulnerabilidade social, além de colocar em risco a vida dos próprios policiais.

Enquanto isso, os “soldados do crime” baleados são prontamente substituídos, porque o tráfico tem um programa de trainee e um RH mais robustos que os de muita empresa. Para esse mercado que opera em escala industrial, não há crise econômica ou lockdown. 

Resultado: temos 28 mortos, uma comunidade estigmatizada, crianças assustadas, mulheres exaustas sem conseguir dormir na própria casa – e nenhum ganho, nada que atinja a espinha dorsal do crime. Continuamos enxugando gelo. 

Nosso erro é ignorar a raiz do problema. O Estado entra na favela esporadicamente e vestindo farda. Não funciona. Ele precisa estar o tempo todo nas periferias, oferecendo não só o braço da polícia, mas um portfólio completo de serviços sociais. 

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As favelas brasileiras aprenderam a se autogerenciar, para o bem ou para o mal, porque o Estado ignora suas obrigações. “Nossa máquina pública está muito inchada”, dizem. Não na favela. Lá o Estado é mínimo – ou inexistente. E alguém ocupou o vácuo. O jovem com um fuzil na mão é a evidência inequívoca de um Estado não soube criar oportunidades. 

O que enfraquece o crime é planejamento social coletivo. É o Estado subir o morro para levar à favela médicos, educadores, urbanistas, psicólogos, assistentes sociais, wi-fi, centros de tecnologia, cursos de formação, quadras esportivas. É levar para aqueles meninos e meninas tudo aquilo que já faz parte do cotidiano do jovem do asfalto. A polícia tem seu papel, claro, mas injustiça social não se corrige à bala. 

Nossos vizinhos colombianos aprenderam essa lição. Medellín integrou tecnologias sociais e políticas públicas nas chamadas “comunas” e, em alguns anos, desmantelou as engrenagens da violência. Hoje, Pablo Escobar ou o Cartel de Cali são coisas do passado, expostas no Museu da Memória da Violência. 

O Brasil ainda pode mudar de rumo, mas o tempo é curto. A fotografia mostra um cenário de pobreza, desigualdade, violência, falta de perspectiva. Somos testemunhas da pandemia de Covid-19, da morte de George Floyd, dos 20 milhões de brasileiros passando fome e, agora, da ação policial mais letal do Rio. Quem está atento aos sinais escuta o tique-taque da bomba-relógio. 

A sociedade precisa evitar que a revolta do oprimido e a inconsequência do opressor levem este país a uma guerra civil. Nosso fracasso social demanda um desafio coletivo. 

Coluna Publicada no Jornal O Globo em 12/05/2021

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