Do favelês ao inglês

Há um mês, eu estava morando temporariamente num motorhome na favela Marte, em São José do Rio Preto, interior de São Paulo. Agora estou num flat em Nova York, centro financeiro dos Estados Unidos. A rua de terra batida deu lugar à grama verde do Central Park, onde escrevo estas linhas.

Reviravoltas assim podem confundir a mente. Quando estamos no chão, a sociedade vaia. Quando ascendemos, aplaude. As duas reações embutem riscos: sensação de impotência, no primeiro caso; armadilha do deslumbramento, no segundo. A serenidade é fundamental para combatê-las e continuar seguindo em frente, não importa se beijando a lona ou subindo ao pódio.

Minha essência é servir aos brasileiros mais pobres da melhor maneira que posso. Foi isso que me trouxe a Nova York. Estou aqui como estudante, descobrindo experimentos sociais bem-sucedidos, absorvendo conhecimento de ponta para levar de volta à favela. Agradeço à ajuda do amigo Carlos Brito, ex-CEO da AB Inbev, que bancou minha estada, e à Kaplan e ao STB Brasil, que investiram numa bolsa de estudos.

Edu Lyra na Biblioteca Pública de Nova Iorque

Já me perguntaram se sofro com o inglês. “Yes, I do.” Certa vez, com a intenção de sugerir uma foto ao lado do megainvestidor Warren Buffett, a quem acabara de ser apresentado, convidei-o para tomar banho.

Mas isso vai mudar. Sempre gostei de correr atrás de metas, e dominar o inglês é uma delas. Todo idioma é uma ferramenta de transformação social. Quero usá-la para mobilizar parcerias no mundo desenvolvido, trazendo essa força para as periferias brasileiras.

Tenho em quem me inspirar. Anitta é um exemplo. Fala com desenvoltura inglês, espanhol, francês. Sua carreira aponta para o futuro, para o que podemos ser. Trata-se de um produto da favela de sucesso mundial.

Não saio do zero. Já domino dois idiomas: o português e o favelês. Todos os dias faço tradução simultânea entre a língua que se fala na Faria Lima, nas universidades, nas empresas, na política, e a língua que usamos na Gerando Falcões, o idioma que a periferia entende e de que se orgulha. É assim que trocamos conhecimentos.

Brinco que, da próxima vez em que encontrar Warren Buffett — provavelmente junto a meu amigo e parceiro Jorge Paulo Lemann, que é seu sócio —, vou usar meu inglês afiado para pedir a senha de sua conta bancária e resolver o problema da miséria no Brasil.

Caso a abordagem hipotética não funcione, já tenho uma alternativa. Criei uma unidade de mobilização de recursos nos EUA, liderada pelo parceiro Maurício Morato, da Gerando Falcões, um apaixonado pelo potencial da favela.

O pouco tempo que passei nos EUA serviu para confirmar que a pobreza é sempre uma ameaça à estabilidade global. Não importa o país ou a região. Enquanto houver miséria, a humanidade toda corre perigo.

É preciso, pois, construir pontes. Daí a importância de dominar aquela que, na prática, é a língua do mundo. Se juntarmos inglês, português e favelês, talvez possamos ajudar o planeta a falar um esperanto social — o transformês.

Coluna da edição de 17 de agosto do Jornal O Globo

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