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Filantropia 2.0

Quando estive nos Estados Unidos, no ano passado, uma das coisas que mais me surpreendeu foi a maneira como aquele país se relaciona com a agenda social e o terceiro setor. Há uma cultura de filantropia muito bem estabelecida por lá, o que contagia da classe média aos bilionários.

O americano médio está habituado a fazer doações regulares para instituições de caridade porque, dentre outras coisas, há políticas públicas que incentivam a filantropia, por meio de benefícios fiscais, por exemplo.

O mesmo vale para o topo da pirâmide. O dinheiro dos bilionários norte-americanos ajuda a custear museus, centros educacionais, pesquisas científicas e projetos sociais. Entidades como a Fundação Bill e Melinda Gates, criada há mais de vinte anos pelo gênio da Microsoft e sua ex-esposa, desenvolvem soluções inovadoras, que exigem tempo e muito financiamento, para os grandes problemas do nosso século.

Voltei dos Estados Unidos esperançoso de que algo similar pudesse florescer aqui no Brasil. A cultura de filantropia é um bom exemplo de algo que deveríamos copiar dos nossos irmãos do norte. Um ano depois, tenho motivo para celebrar o quanto avançamos.

A Gerando Falcões realiza há sete anos o Favela Gala, um jantar beneficente que reúne parte expressiva do PIB do país para discutir a agenda social. A edição deste ano foi, acima de tudo, um grande reencontro, já que a pandemia nos impediu de realizar o evento por dois anos.

Contamos com a presença ilustre de ícones da cultura brasileira, como Taís Araújo, Ivete Sangalo e Regina Casé, com um discurso magnífico do publicitário Nizan Guanaes e, é claro, com nomes de peso do mundo dos negócios.

Favela Gala - Gerando Falcões

Atriz Taís Araújo no Favela Gala

Exposição no Favela Gala

Com a ajuda de todos eles, quebramos um recorde histórico. A última edição do Favela Gala havia arrecadado cerca de R$ 4 milhões. Neste ano, foram R$ 20 milhões. É o maior valor já angariado no Brasil em um evento desse tipo.

O montante será nosso combustível pelos próximos meses para que possamos continuar buscando formas inovadoras de colocar a pobreza da favela no museu. É assim que iremos custear, por exemplo, o programa Favela 3D, que vem nos ensinando um jeito revolucionário e mais definitivo de transformar a vida nas periferias.

Isso, aliás, é tudo o que peço à elite brasileira: paguem pelo protótipo. Tecnologias sociais inovadoras não surgem de uma hora para outra. Elas estão sujeitas a testes e reformulações. Toda grande ideia que a humanidade já teve foi resultado de muita experimentação, de acertos e erros. Com a área social não poderia ser diferente.

A filantropia é necessária para bancar esse processo longo e tortuoso. Ela é o venture capital do combate à pobreza, uma aposta no trabalho disruptivo dos nossos mais brilhantes inventores, que estão dia após dia na favela em contato direto com os brasileiros mais carentes.

Nosso futuro depende dessa aposta. Boas políticas sociais podem ser replicadas nos quatro cantos do país, enfrentando a pobreza em escala. No entanto, para que esse tipo de solução apareça, o terceiro setor precisa de ajuda para desenvolver seus protótipos.

O sucesso do Favela Gala 2022 mostra que parte expressiva do PIB brasileiro já entendeu essa lição. Os tempos da filantropia episódica e secundária ficaram para trás e cederam lugar para a filantropia 2.0, que antecipa uma revolução no terceiro setor.

*Coluna publicada pelo Jornal O Globo em 30/08/2022.

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Assinatura do Edu Lyra

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