A linha do tempo da Favela

A favela, como tudo no mundo, têm sua história. Apesar de parecer que sempre estiveram ali, os conglomerados habitacionais sem condições humanitárias mínimas, nasceram de várias lutas. E, se pensarmos bem, todas lutas por um mundo mais igualitário.

Assim, podemos dizer que tais lutas começaram com a lei áurea; passando pela derrubada dos cortiços cariocas; desembocando na árvore Favela, que dava nome ao morro de onde o canhão A Matadeira dizimou a população de canudos.

Enfim, são, como tudo na humanidade, milhares de fatores que fizeram esse aglomerado urbano, chamado favela, do jeito que o vemos hoje. Nesse sentido, favelas se transformaram em seres únicos, com identidade própria. Assim, para alguns, cada favela é como um indivíduo, com vida e vontade própria.

E, para entender um indivíduo, precisamos sempre, antes de tudo, entender a sua história. Por isso, tentamos fazer um “pout pourri” dos principais acontecimentos. Tudo para você ter um primeiro contato com essa história de sofrimento, dor, mas, antes de tudo, de luta.

 

 A abolição da escravatura e o Cortiço Cabeça de Porco (1893)

É óbvio que, para entender a favela, temos que falar sobre a abolição da escravatura. Primeiro, falar que a lei assinada pela Princesa Isabel em 1888, deu apenas liberdade para os escravos, mas não direitos trabalhistas.

 

A abolição da escravatura

A lei Áurea foi uma canetada da época, mas a luta pela abolição havia começado muito antes, quando o Rei Dom João Sexto veio morar no Brasil, fugindo de Napoleão. Ele veio escoltado pelas tropas inglesas. Elas queriam que não houvesse mais escravos no Brasil, o único país do globo que ainda aceitava a escravidão.

Contudo, a Inglaterra não era santa. Havia abolicionistas na inglaterra da época, mas também tinham interesses econômicos ali. Afinal de contas, se um país continuasse tendo escravos, poderia produzir a um custo baixo, confrontando com o país que era os “Estados Unidos” da época.

 

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Outro ponto fundamental é entender que a lei para abolição da escravatura foi uma novela que durou 50 anos. Entre canetadas, deputados ruralistas que não iam para as sessões para votar a lei, e outros percalços, os escravos continuaram sendo traficados como as drogas de hoje.

Sendo assim, os negros saíram da escravidão com uma mão na frente e outra atrás. Com isso, os cortiços se popularizaram no Rio de Janeiro. Moradias precárias, que alojavam negros, nordestinos, prostitutas, capoeiras, mulatos. Enfim, tudo o que era considerado “descartável” na sociedade da época. Eram as favelas deles.

Verdades sobre a abolição da escravatura

Além disso, havia vários cortiços no centro do Rio de Janeiro, que, no começo do século XX, passou por uma reurbanização. Nesse sentido, todos os casarões dos ricos tinham sido abandonados. Eles estavam caindo aos pedaços e sendo habitados por futuros favelados. E um deles se chamava Cabeça de Porco, perto do Morro da Providência.

 

A construção da Favela e a destruição dos Cortiços

No final do século XIX, mais de 2000 casas foram derrubadas no centro do Rio de Janeiro. E tudo com a prerrogativa de fazer uma reurbanização, saneamento básico e civilizar o centro da cidade maravilhosa. Na verdade, foi uma dizimação completa da população miserável, que teve que subir o morro e habitar a primeira favela.

Na época, o maior cortiço do centro carioca se chamava Cabeça de Porco. Nele, houve a maior chacina por parte do estado para a reurbanização do Rio de Janeiro. O governo queria construir um túnel que ligava o centro a orla carioca.  Foi a destruição desse cortiço que inspirou Aloizio de Azevedo a escrever a sua obra, O Cortiço, que retrata com maestria o comportamento dos moradores destas comunidades “pré-favela”.

 

O Cortiço Cabeça de Porco e a Favela da Providência

 

“Quem suporia que uma barata fosse capaz de devorar uma cabeça de porco em menos de 48 horas?”. Assim, o jornalista Ângelo Agostini, da Revista Ilustrada, retratou a chacina do estado, comandado pelo então governador Barata Ribeiro, contra o cortiço carioca Cabeça de Porco. Tudo para construir um túnel.

 

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O túnel dos marinheiros fazia parte da reurbanização do centro carioca. E por reurbanização, entendamos uma nova Paris para as elites. Não, não estou brincando. Para se ter uma ideia, quando inaugurada, a Avenida Rio Branco só recebia pessoas de fraque e vestidos chiques.

 

História Avenida Rio Branco

Parte do cortiço, que era habitado por cerca de 4000 pessoas,  ficava ao lado do Morro da Providência. Relatos da época dizem que os moradores subiram o morro com os restos de madeira do cortiço, para construir os primeiros barracos da primeira favela.

Favela, que só viria a se tornar substantivo relacionado à moradia, nos anos 20, depois da guerra de Canudos.

 

A Guerra de Canudos e as favelas (1896-1987)

Quem diria que a árvore favela, que povoava um morro no sertão da Bahia, onde havia o arraial de Canudos, viria a ser o nome dado aos morros habitados de maneira precária em todo o Brasil. Um quebra-cabeças de sangue, luta e reflexão sobre a eterna guerra de classes que assola o nosso país.

 

A história das favelas e uma árvore

 

A planta favela tem uma picada ardida. É daquelas cheias de pontinhos espinhentos. Por isso, é preciso tomar cuidado, pois tais espinhos são daqueles que podem trafegar pelo nosso corpo, criando um caminho próprio. Assim, a dor fica insuportável.

Além disso, a árvore favela é prima da seringueira, da família das Euforbiáceas. Assim como sua prima, ela produz um látex grudento; que arde no contato com a pele, podendo causar queimaduras.

Sendo assim, era por ser proliferado com várias Favelas que o morro atrás do arraial de canudos foi batizado de morro da favela. Agora, veremos como essa árvore  virou substantivo relacionado à habitação.

 

 

O MORRO DA FAVELA E A MATADEIRA

O Morro da Favela ficava atrás do Arraial de Canudos. Ou o Arraial ficava na frente do Morro da Favela, mas não interessa agora. O que importa é que havia um morro ali, junto da sociedade evangélica autossustentável, com cerca de 5.000 casas e 25.000 moradores, comandada por Antônio Conselheiro.

 

 

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Como na demolição dos cortiços cariocas, a madeira também teve papel fundamental. Se lá ela foi usada para construir os primeiros barracos, na Bahia, madeiras compradas por Canudos não haviam sido entregues. Era a madeira para construir a nova e suntuosa Igreja do Arraial de Canudos.

O grupo de Conselheiro já tinha desavenças com o governo federal. Conselheiro era monarquista e não acreditava em um estado laico. Além disso, se desentendeu com os governantes, sobretudo quando começaram a cobrar impostos de Canudos. Ele alegava que, como o estado nunca havia ajudado Canudos, não podia cobrar nada.

 

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Assim, um grupo de Antônio Conselheiro foi para Juazeiro ( BA), atrás dos seus direitos. Contudo, voltaram com as mãos abanando, além da morte de 10 soldados na conta. Além disso, trouxeram a raiva dos governantes e do proletariado local, gerando o estopim para a guerra de canudos.

 

 

O canhão no Morro da Favela

A República acabara de ser instaurada no Brasil. O governo não podia deixar que os favelados nordestinos da época fizessem tal afronta. Por isso, mandaram tropas com cerca de 500 homens para a Bahia. Os nordestinos conseguiram entocar os soldados federais, algumas vezes, em uma espécie de Vietnã do sertão.

Além disso, os nordestinos já haviam vencido o exército 3 vezes. Óbvio que o governo não iria deixar barato. Então, em agosto de 1897, o presidente Prudente de Moraes enviou o ministro da Guerra, Carlos Machado Bittencourt, para acabar com Canudos de vez.

 

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No Morro da Favela, colocaram um canhão chamado A Matadeira. Foi um massacre! 25.000 nordestinos morreram. Quando Antônio Conselheiro morreu, em 22 de setembro de 1897, seus seguidores levantaram bandeira branca. Porém, o exército continuou matando sem dó, nem piedade.

Os soldados voltaram para o Rio de Janeiro. O governo havia prometido uma espécie de “Minha casa, Minha Vida” para os combatentes. No entanto, eles nunca receberam casa nenhuma. Por isso, fizeram greves e mais greves no ministério do exército, atrás do Morro da Providência (olha ele aí outra vez).

Em seguida, cansados de esperar, resolveram subir o morro. Já haviam barracos ali – lembre-se do Cortiço Cabeça de Porco. E os soldados não paravam de falar que aquilo parecia o Morro da Favela. Nesse sentido, foi de tanto o termo ser cunhado pelos soldados enganados, que o nome foi se perpetuando na cabeça de todos. Assim, no Morro da Providência, nascia a primeira Favela do Brasil.

A linha do tempo das favelas em 3 acontecimentos

Abolição da escravatura ( 1888) – Com a abolição, os escravos ficaram sem rumo. Sem direitos trabalhistas, começaram a se mudar para os bairros abandonados. Foram criados os primeiros cortiços, que eram as favelas da época.

Reurbanização do Rio de Janeiro ( 1904)- O centro do Rio de Janeiro vinha caindo aos pedaços e o presidente Prudente de Moraes resolveu reurbanizar a área. A polícia dizimou mais de 2000 moradias, dentre elas, o cortiço Cabeça de Porco, conhecido como o avô das favelas.

Guerra de Canudos ( 1896-1897): Soldados foram enviados para combater em Canudos com a promessa de que, ao voltar para o Rio de Janeiro, teriam uma casa. A promessa não foi cumprida pelo governo. Então, eles resolveram subir o Morro da Providência e se juntar aos ex moradores dos cortiços cariocas, na primeira favela.

 

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#tamojunto

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