O bilionário cuja a riqueza foi levar comida à favela onde vivia

Um bilionário amigo meu morreu dias atrás. O caso não repercutiu na grande imprensa, então talvez você não tenha ficado sabendo da vida de Emanuel Pedrosa.

Alagoano, morador de comunidade, era pedagogo, empreendedor social e fundador do Instituto Girassol, que integra a rede Gerando Falcões. Deixou a esposa, Silvia, e uma filha, Rebeca, ainda no ventre da mãe.

Emanuel atuava na linha de frente do combate à pandemia. Ajudou a colocar comida no prato da favela. Levou álcool em gel para quem não tinha água encanada. Permitiu que os filhos dos pobres tivessem acesso à educação.

Foi um herói de carne e osso, como tantos profissionais de saúde e do terceiro setor – e acabou vencido pela Covid-19.

Emanuel não acumulou bens materiais. Sua riqueza era social. Em outros tempos, seria sepultado como um guerreiro, com louvores, cantos e oferendas. Hoje, corre o risco de morrer esquecido, exceto pelas centenas de garotas e garotos impactados por sua ação na comunidade. Perdemos a capacidade de medir a riqueza de grandes homens como Emanuel. Nossos rankings detectam fortunas de maneira unidimensional. Louvamos o dinheiro pelo dinheiro. Medimos a produtividade e a criatividade de alguém sob um ponto de vista apenas econômico. Esse critério está incompleto.

A verdadeira riqueza é tridimensional. Ela engloba os patrimônios econômico, ambiental e social. As três linhas de força precisam estar concatenadas para gerar progresso coletivo. Desacoplar o econômico do ambiental ou do social é o mesmo que pisar no acelerador e no freio de um carro ao mesmo tempo. O resultado está aí, para quem quiser ver: estamos perto de fundir o motor. Hoje, a sobrevivência da nossa espécie depende do balanceamento dessas três dimensões da abundância.

Encarar a riqueza de forma tridimensional é colocar a sociedade no lado da mudança, não da omissão. É torná-la sócia da inclusão e do progresso. Por isso chamo meus investidores de sócios. Eles entendem de negócios e de finanças. Eu entendo do social. Nos completamos e podemos, com isso, multiplicar patrimônio, inclusive aquele que não se mede em cifrões. Não fosse assim, morreríamos todos pobres – econômica, ambiental ou socialmente.
A pandemia retirou à força algumas das traves que nos cegavam para as gritantes desigualdades do Brasil.

Que a partida de Emanuel e de tantos outros ensine de uma vez por todas que precisamos reequilibrar valores, mudar prioridades e encarar a riqueza em todas as suas dimensões. Pra ontem.
Silvia me disse por telefone: “Edu, vamos honrar a história do meu marido”. Também alagoana e educadora, ela sabe perseverar em tempos difíceis. E o legado de Emanuel merece, mesmo, todas as honras.

Nascido na exclusão e na pobreza, pode ser uma bússola que nos guiará no caminho da prosperidade.

Obrigado, meu amigo, por dedicar sua vida à mudança. Faremos de tudo para que a Rebeca cresça em um mundo diferente. Um mundo melhor. Vá em paz.

  • Coluna publicada no jornal O Globo, no dia 02/03/2021

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