Olimpíada social

Quinto maior país do planeta, o Brasil tem desafios sociais do tamanho da sua extensão. Segundo o Global Wealth Report, a desigualdade no país atingiu em 2020 o recorde das duas últimas décadas. Todos nós, brasileiros, temos uma Olimpíada social para disputar. Por enquanto, estamos muito distantes do pódio.

Como um atleta profissional, precisamos de foco, de estratégia. Não adianta reclamar ou se desesperar. Para começar, vamos observar o que está funcionando socialmente num país em que nada parece dar certo nessa área. Alguns protótipos merecem atenção. Em vez de reclamar da educação, vamos nos mirar em Sobral, no Ceará. Que tal “sobralizar” o ensino?

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Há outros exemplos que estabelecem paradigmas igualmente relevantes. Na semana passada, estive no Recife, onde fui aprender lições para o Favela 3D, programa de enfrentamento da pobreza da Gerando Falcões. A cidade é dirigida por um jovem de 27 anos que representa muita esperança para o Brasil: João Campos. Visitei o Compaz, considerado pela Oxfam Brasil como o melhor programa de redução de desigualdades do país. Liderado por Murilo Cavalcanti, secretário de Segurança Cidadã, o programa é tão consistente que deveria ser implementado país afora.

Subi encostas íngremes para conhecer o Mais Vida nos Morros. Recife é a quinta cidade do país com a maior concentração de favelas. Quase todas as favelas de Pernambuco (97%) estão na Região Metropolitana. Tullio Ponzi, secretário executivo de Inovação Urbana e líder da Rede de Ação Política pela Sustentabilidade (Raps), fundou em 2016 uma espécie de startup dentro do governo que apresenta protótipos para soluções urbanas nos morros. Com resiliência, reinventa-se a cidade e se combate a desigualdade socioespacial a partir do protagonismo comunitário e da promoção do desenvolvimento sustentável e de um espaço urbano melhor para as crianças.

Edu Lyra e Tullio Ponzi

Tullio tem sensibilidade para entender que o morador da favela é o maior especialista em favela e, portanto, deve estar no centro da construção das soluções. Juntos, eles transformam microvazios urbanos: vielas abandonadas, em quadras esportivas; calçadas esburacadas, em espaço para pular amarelinha; um veículo abandonado, em carro-jardineira. Tudo isso num cenário de paredes pintadas com muita cor (com apoio empresarial das Tintas Coral) e com a ajuda de centenas de voluntários. A partir do desejo dos moradores, o programa integra as demais áreas do governo para instalar iluminação pública e infraestrutura social básica.

A estratégia inicial do programa estava associada a uma abordagem de defesa civil e prevenção de desastres. Hoje, promove o desenvolvimento dos territórios, por meio do estímulo ao protagonismo dos adultos e sobretudo das crianças, todos cidadãos. Ouvi moradores emocionados dizendo que têm orgulho da comunidade onde moram. Eles relatam que a violência diminuiu e que até suas casas valorizaram.

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O Brasil não tem só problemas. Tem soluções também.

O Brasil não tem só burocratas. Tem Murilos e Tullios também.

Basta vontade política para identificar e reproduzir o que eles fazem em seus laboratórios sociais para merecer o ouro na Olimpíada social.

Coluna da edição de 03 de agosto do Jornal O Globo

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